segunda-feira, 14 de maio de 2012

Conversa-fantasma

- Oi.
- Oi.
- Achei que não fosse mais te ver.
- Eu fiz o possível pra que isso não acontecesse.
- Ah.
- Mas agora tudo bem, já passou.
- Hum.
- Tá tudo bem.
- Você não sente mais minha falta?
- Acho que sim. Ás vezes sinto muita. Da voz, de falar que te amava no final de cada ligação. Sinto tantas faltas. De ser abraçada e me sentir protegida. Sinto falta de um cheiro familiar, os olhos fechados, a pele morna. De estar em um momento que dura pra sempre. De projetar o melhor de mim em você.
- Mas e de mim, não?
- Sinto falta do que eu era quando estava com você. Do sentimento de completude, eu sentia que tinha tudo que precisava.
- Hum.
- É, acho que não sinto mais sua falta. Sinto falta de mim.


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A espera do Ir-remediável

"Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver." Caio F.
Meu avô se chama Carlos. Foi o melhor professor que tive na vida. Provavelmente o homem mais educado que eu conheci. A vida dele se resumiu em ensinar. Meu avô tem Mal de Parkinson. E vive com medo de morrer.
Durante toda a vida, nunca tive grandes problemas com a morte. Creio que em parte isso aconteceu porque mesmo não tendo dimensão próxima e exata, eu era rodeada por ela. Morte todos os dias no jornal, na tevê, no mundo todo. E de repente a iminência da morte do meu avô me deixou preocupada. Quando se vive esperando a tal criatura vestida de preto carregando uma foice, o terror toma conta de cada célula do corpo. A morte dá medo em quem vive, e só.
Quando ela vem lenta e sorrateira, o impacto é ainda pior. A deterioração do corpo ao longo da vida é até aceitável. A deterioração da mente é mais dolorosa, irracional. Porque a morte é falta de vida; mas a falta de memória também é. Não só a incapacidade de se fazer algo para evitar um destino fatal, mas o desespero de não conseguir acessar informações que estão ali, em algum lugar do seu cérebro. Como por exemplo, procurar um bilhete em 78 anos de papéis que se espalham nas gavetas da memória. Primeiro faltam as lembranças, depois as palavras. E lentamente vão faltando motivos para que haja comunicação com o mundo externo, e a espera pela morte se torna solitária e (se isso for possível) mais triste.
Não saberia viver sem minhas lembranças. Sem minhas palavras. Sem minha inspiração fujona que se esconde, mas sempre volta para trazer boas noticias. Não sei como viver num mundo sem meu avô. E muito menos saberia como viver no mundo tão misterioso e solitário daquele homem de cabelos brancos que passou a vida inteira ensinando e que hoje tem que aprender tudo de novo.
Caio Fernando Abreu chamou de “irremediável” algo melancólico e sem saída e de "ir-remediável" um trajeto que pode ser consertado. Será que é possível aprendermos a ver a morte sob esse aspecto? Com certeza alguém já ouviu a mãe ou a tia dizer que falar sobre esse assunto “chama” a coisa ruim. Talvez sejam lendas como essa que transformam a morte em assunto desagradável. Ninguém quer pensar que um dia não existirá mais como matéria no universo. Mas é por saber que pessoas como meu avô pensam nisso todos os dias que penso no quanto fechamos os olhos para a dor da espera.
Apesar de terem um fim inevitável, as doenças degenerativas têm um aspecto angustiante muito forte. Temos em nosso consciente que o tempo é irreversível, mas nada consta ali sobre a possibilidade de que uma enfermidade nos faz regredir, em uma verdadeira máquina do tempo reversa. Necessitar de cuidados de bebês com corpo de adulto. Os sintomas que acabam sendo causados por remédios, feitos para frear a evolução da doença, são como recuar do abismo da morte, em direção a um buraco um pouco mais raso, porém escuro.
Acompanhar o sofrimento daqueles que amamos, não é uma tarefa fácil. A sensação de incapacidade pode ser paralisadora, aterrorizante. Há aí uma confusão entre ter pena e ter piedade. Ninguém deseja ser alvo de pena de alguém. É o exercício de empatia que enriquece o ser humano, o colocar-se no lugar do outro, com a humildade do doente. Um ato que devíamos transformar em hábito.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O velório do que já foi

“Esperar um pouco menos, amar um pouco mais”. Quando li essa frase, muitas cores povoaram meu pensamento. Arthur Shopenhauer dizia que toda ausência gera um desejo. Dessa forma, sempre que atingimos um objetivo criamos um novo, pois a falta dele nos é insuportável. Onde começa o desejo e onde termina a satisfação?
O tema trouxe a necessidade de pensar nesse valor: o da ausência. Sempre sentimos falta de alguma coisa. Na mitologia grega, a mãe de Eros era a Penúria. Qual o sentido disso? Eros é a personificação do desejo e sua mãe, da falta de. Portanto a falta gera o desejo. Shopenhauer devia gostar de mitologia.
Sentimos em nós lacunas que uma vez foram preenchidas. Nostalgias. Espaços que foram ocupados e jazem sem dono, inférteis. Os estóicos sugeriram que devêssemos viver de forma que não fôssemos escravizados pela paixão. Que deveria se esperar menos, amar mais. Viver de acordo como a Natureza nos impõe, ou no português claro, o destino. Se desejarmos sempre aquilo que não temos, viveremos sempre num estado de infelicidade. Nesse caso, a paixão é infeliz.
Não sei até que ponto essa filosofia se aplica realmente. Digo na vida real, aquela vivida a cada minuto, inclusive este. Há em nós esses vazios que não se completam, mas que nos impulsionam a arder a chama, a realizar um desejo. Mesmo que seja um fogo temporário.
O ciclo vital nos empurra, invariavelmente, para frente. Nós é que insistimos em voltar nosso rosto e por vezes nosso coração para o que já passou. Estradas que ficam impressas nos pneus da memória.
A paixão não necessariamente escraviza. Ela é a expressão mais ardente de um desejo que não cabe dentro de um corpo, que precisa ser externa, aguda, gritante. Não existe sabedoria no desejo. Entendo o desejo como entendo o vazio. São lados de uma mesma moeda girando, girando, girando.
Não me conformo com a vida acontecendo dentro do círculo dos 99, onde a infelicidade da ausência da última moeda faz o menestrel esquecer as 99 que já tem. Se nos permitirmos entrar nesse ciclo, como o próprio nome já diz, não há evolução. E se tem uma coisa que tira do sério quem tem urgência em ser feliz, é vocação pra cavar buraco em volta dos próprios pés.
Cada um vai achar uma saída, uma resposta. Alguns acharão em Deus, outros acharão em uma relação, no Universo, no desconhecido, tanto faz. Transcender não tem receita, não tem atalho, muito menos definição. Você pode chafurdar na lama, correr até sentir que suas pernas sumiram, rodar até o mundo parecer um borrão. O que vai importar é como você vai reagir quando a chuva molhar seu rosto e encharcar sua alma. É ser capaz de receber o gosto, o cheiro e a sensação da água sobre a pele. E se tudo isso te fizer pensar que há uma comunhão entre você e o resto do mundo, por alguns segundos todos aqueles espaços e todas aquelas saudades são preenchidas por versões de você, que têm que coexistir num mesmo corpo, que anseia por novas maneiras de ser.
O desejo, a ausência. “Elle ne savait pas que l'Enfer, c'est l'absence”. Ela não sabia que o inferno é a ausência. I can’t get no satisfaction. Nós sempre vamos querer mais. Verlaine, Shopenhauer, Mick Jagger, e até Buda tinha questionamentos sobre o tema. Se a resposta não existir afinal, pelo menos teremos algo a buscar e, afinal, era esse o ponto principal desde o começo.

domingo, 11 de setembro de 2011

As coisas que a gente não diz



As pessoas não são depósitos de palavras. Só porque você diz algo, não significa que aquilo é absoluto, muitas verdades também ficam velhas e têm validade.

O tempo nem sempre é o melhor remédio. Ele deixa sentimentos empoeirados, amizades desbotadas e sonhos mofados.

A gente sempre espera ser correspondido, mesmo dizendo que ama sem garantias.

Amigos são a família que a gente escolhe. O que ninguém te fala é que amor incondicional que você tem as vezes de pai, mãe ou avô é raro e as vezes a família que voce escolhe tem condições.

O que hoje é uma regra, amanhã se torna uma característica.

Existem pessoas eternas. São as que desapareceram da sua vista, mas não do seu pensamento.

Se para cada escolha há uma renúncia, para cada atitude há uma retaliação.

Você experimenta a felicidade em momentos, não em pessoas.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Estiagem




Há épocas em que a gente não se encaixa muito bem no mundo. Dias em que não há sorvete, festa ou programa que tire a sensação de que algumas coisas precisam ser consertadas, outras curadas e porque não algumas jogadas fora. Eu chamo de tempo de estiagem, porque não há nada que cresça, nada que floresça, nada que maravilhe. É um tempo gasto com a bagagem que possuímos e as expectativas, um tempo que nem sempre queremos dividir com o mundo. Algo que na minha visão é um tanto quanto raro em tempos onde a vida é tão exposta. Há o Orkut, o Facebook, o MSN, o BBM. No tempo de estiagem não queremos ser alcançados, queremos ser compreendidos. A compreensão da distância é mais difícil. De alguma forma não há lugar onde se sinta confortável, porque não estamos confortáveis. E não há remédios, bulas ou receitas.
É também um tempo onde aqueles que realmente gostam e se importam com você vão estar ao seu lado em silêncio, mesmo que você recuse todos os convites para a balada do ano. Na estiagem só sobrevive o que é forte, o que luta pra estar ali.
Li hoje uma reportagem sobre como se tornou fácil saber aonde as pessoas vão, com quem elas vão, se elas estão assim ou assado, qual é o último bafo. Estiagem não combina com redes sociais, nem telefone, nem salto alto.
Talvez seja uma solidão necessária, uma chance pra pegar alguns pedacinhos que se soltaram e que não tem como varrer pra debaixo do tapete. Cada vez mais aprendo a respeitar o tempo de cada um mas, principalmente, o meu.
E sim, as pessoas que te amam e que você ama são importantes nesse momento. Mas de um jeito diferente, sem que se necessite saber todas as letras do que se passa. Mesmo porque nessas horas provavelmente serão as vírgulas que estarão contando.
E então quando menos se esperar, a terra estará pronta pra receber a chuva e respirar, para então receber as flores que, inevitavelmente, virão.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A carta

Era uma dessas tardes de fim de inverno, exceto pelo fato de que nem parecia inverno. Olhou pela janela enquanto o sol aquecia sua pele. Respirou, mas o ar era seco demais. E precisando de umidade, seus olhos degringolaram em gotas emergenciais.
Tocou o interfone: “O correio deixou algo pra senhora, dona Alice”. Desceu pelo elevador intrigada, carregando um coração cheio de dúvidas. Estava há dias esperando pra falar o que sentia, mas algo sempre se imprimia em seus lábios: I feel, Yo siento. Nunca no seu idioma, não, aquilo já seria óbvio demais; tinha essa mania de negar pra si em uma língua diferente, como se houvesse uma estrangeira dentro daquele coração. Uma hermana que tinha um ponto de interrogação bem no meio da garganta. Uma entrega especial, urgente. Era uma caixa pequena e branca.
Dentro da caixa havia apenas um espelho e uma carta. Alice de olhos degringolantes, com dificuldade, começou a ler:
“Pois é, pasme. Resolvi soltar meu verbo. Em português. Há dias tenho convivido com esse corpo estranho que você chama dúvida. O coração não vem com manual de instruções menina; a paixão muito menos. Como uma criança, ela é toda sentir. Ela chora, ela sente dor e não sabe o que é. E ela precisa de pele, de empatia. Pra crescer e virar alguém melhor, alguém que você pode contar e confiar.
Eu não sei viver com migalhas de amor, não sou passarinho, ouviu bem? Eu sou João e Maria, gulosos atrás da casa feita de doces, mesmo que pra isso, tenha que enfrentar uma bruxa malvada.
Não existe compreensão na paixão, Alice. É uma noite de libertinagem, de querer, é o egoísmo na sua forma mais irracional. Você quer pra si, só pra si. Paixão a gente não divide, criança. Sem essa de duas pessoas. Ela pode até acontecer entre dois corpos, mas a celebração é num único ser.
Amor é diferente? Sei lá, Clarice achava que “poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais”. Eu adoro a Clarice, mas não concordo. Amor é outra coisa. Amor é de cada um, mas é inteiro entende? A cola é a paixão.
Tá bom, entendi. Por que eu não te falei antes? Sei lá. Talvez eu precisasse de uma coisa só minha. Meu segredo é esse, eu preciso de uma coisa que seja só do meu conhecimento sabe? Porque apaixonada, a gente fica cristalina demais. Too clear my dear.
Olha, não chora assim. Eu só quero ajudar, porque eu sofro também nessa história. Alice, é assim: a paixão vem como uma onda gigante. Depende de você surfar e curtir o passeio. Sempre há a possibilidade de você cair, como você também leva um caldo se perder o controle na hora de subir. Mas a forma de encarar a onda depende de você.
Minha experiência como surfista diz que se a gente souber aproveitar a onda, dá até pra chegar na praia suavemente. Isso eu chamo de amor. O que não impede você de pegar uns jacarés de vez em quando, em dupla.
Sei que a razão fica no seu pé. Isso é barra, nem imagino o que você está passando com essa história de tradução simultânea. Eu tenho meu idioma natural, que é às vezes (como você já percebeu), muito desbocado. Peço desculpas pelo “vômito”. Mas como você bem sabe, a conselho de Caio F. a gente deve moldar essa gosma, pra ver o que sai dela. Me agradaria muito um girassol. Ou lírios, adoraria ver lírios teus.
Acho que eu vou me despedir, você ainda tem muita coisa pra discutir com a parte de lá. Diga a minha querida “razón” que mandei um beijo. A gente nunca se encontra mas uma não vive sem a outra.
Fique bem, feliz, sempre.
Sempre seu,
Coração
PS: Você precisa se exercitar.”

Alice pegou o espelho; entrou fundo naqueles olhos úmidos e vermelhos. Era um dia muito quente e nem parecia mas ainda era inverno. Pegou sua prancha e foi de encontro ao mar. Lá fora, setembro se anunciava, a primavera estava chegando.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Nosso descompasso de cada melodia




Fico pensando em maneiras de começar a dizer sobre tudo aquilo que me ocupa o estômago, sobe pela garganta queimando e desagua nos meus olhos. Eu sou toda incerta, sou cheia de defeitos. E descobri que eles vêm a tona nos meus dias mais intensos, mais cheios de sentimento.
Esgotei minha paciência, as paredes do meu quarto ficaram apertadas demais. Eu não sei sentir pela metade. Eu sou do tipo que vai até o fundo do poço. Mas sempre espero que você jogue a corda pra me puxar.
Me desculpa, eu sou explosão. Lembrei porque o vulcão entra em extinção. Causa estrago demais, demora pra se reconstruir tudo. Quando eu amo sou assim, vulcânica.
Tenho gênio difícil, personalidade de uma genética italiana. Meu sangue não corre, ele borbulha. Você pode me explicar seu amor durante horas: eu levei segundos pra saber que você não quer dizer tudo aquilo que ensaiou.
Amei demais e não fui amada. Já amei e fui amada. Nem sempre no mesmo tom. Mas é assim que surgem as melodias, nos descompassos da tentativa de se atingir harmonia.
Quero ser mimada, quero ser provada. Me desafie a ser melhor; eu te desafio a me conquistar.
Dou com a cara na parede porque me entrego a esse coração vagabundo e crio fantasias. E meus reinos sempre são mais limpos do que as cidades de verdade. Te peço então: entra no conto de fada comigo, constrói um portal pra gente voltar pra realidade. Mas não rasga meu desenho com sua chatice de gente que vive de cabresto.
Não gosto de gente sem atitude. Ir com a maré é até bom, contanto que sua vida não esteja pautada nisso.
Eu quero ser sempre melhor pra quem eu amo e espero o mesmo pra mim. Já passei um tempo vivendo da dieta do amor: pequenas doses esparsas de atenção. Abandonei o Vigilantes das Migalhas e virei obesa crônica - gulosa.
É, eu posso ser uma mente complicada demais pra você. Mas acredite, não passo de um conto de Guimarães Rosa. Uma vez que você traduzir minha linguagem, fica lindo de ler.
Então é isso: traz tuas notas soltas pra gente fazer um refrão. Bem bonito.